quinta-feira, setembro 25, 2008

Para enriquecer o vocabulário

Ai ai, essas brasilidades, rsrsr

Para evitar que estrangeiros fiquem “pegando injustamente no nosso pé”, está-se compilando o ” Dicionário Brasileiro de Prazos”, que já deveria estar pronto (mas atrasou), do qual foram extraídos os trechos a seguir:

DEPENDE: Envolve a conjunção de várias incógnitas, todas desfavoráveis. Em situações anormais, pode até significar sim, embora até hoje tal fenômeno só tenha sido registrado em testes teóricos de laboratório. O mais comum é que signifique diversos pretextos para dizer não.

JÁ JÁ: Aos incautos, pode dar a impressão de ser duas vezes mais rápido do que já. Ledo engano; é muito mais lento. Faço já, significa “passou a ser minha primeira prioridade”, enquanto “faço já já”, quer dizer apenas “assim que eu terminar de ler meu jornal, prometo que vou pensar a respeito.”

LOGO: Logo é bem mais tempo do que dentro em breve, e muito mais do que daqui a pouco. É tão indeterminado que pode até levar séculos. Logo chegaremos a outras galáxias, por exemplo. É preciso também tomar cuidado com a frase “Mas logo eu?”, que quer dizer “tô fora!”.

MÊS QUE VEM: Parece coisa de primeiro grau, mas ainda tem estrangeiro que não entendeu. Existem só três tipos: de meses: aquele em que estamos agora, os que já passaram e os que ainda estão por vir. Portanto, todos os meses, do próximo até o Apocalipse, são meses que vêm!


NO MÁXIMO:
Essa é fácil: quer dizer no mínimo. Exemplo:Entrego em meia hora, no máximo. Significa que a única certeza é de que a coisa não será entregue antes de meia hora.

PODE DEIXAR: Traduz-se como “nunca”.

POR VOLTA: Similar a “no máximo”. É uma medida de tempo dilatada, em que o limite inferior é claro, mas o superior é totalmente indefinido. Por volta das 5h quer dizer a partir das 5 h.

SEM FALTA: É uma expressão que só se usa depois do terceiro atraso. Porque depois do primeiro atraso,deve-se dizer “fique tranqüilo que amanhã eu entrego.” E depois do segundo atraso, “relaxa, amanhã estará em sua mesa. Só aí é que vem o amanhã, sem falta.”

UM MINUTINHO: É um período de tempo incerto e não sabido, que nada tem a ver com um intervalo de 60 segundos e raramente dura menos que cinco minutos.

TÁ SAINDO: Ou seja: vai demorar. E muito. Não adianta bufar. Os dois verbos juntos indicam tempo contínuo. Não entendeu? É para continuar a esperar? Capisce! Understood? Comprenez-vous? Sacou? Mas não esquenta que já tá saindo…


VEJA BEM:
É o Day After do DEPENDE. Significa “viu como pressionar não adianta?” É utilizado da seguinte maneira: “Mas você não prometeu os cálculos para hoje?” Resposta : “Veja bem…” Se dito neste tom, após a frase “não vou mais tolerar atrasos, OK?”, exprime dó e piedade por tamanha ignorância sobre nossa cultura.

ZÁS-TRÁS: Palavra em moda até uns 50 anos atrás e que significava ligeireza no cumprimento de uma tarefa, com total eficiência e sem nenhuma desculpa. Por isso mesmo, caiu em desuso e foi abolida do dicionário.

sábado, setembro 20, 2008

Ensaio sobre a cegueira - o filme

Quando li ao livro, tive a nítida sensação de que estava, na verdade, assistindo a um dos maiores filmes da minha vida. É que Saramago caprichou no verbo e descreveu cenas que, de tão reais, não precisavam de muita imaginação para vê-las ao vivo e em cores na cabeça. Tantas vezes comentei sobre o livro trocando o verbo ler por assistir, tão forte eram as sensações e cenas que se mostraram diante dos meus olhos, apesar do branco do papel e do preto das letrinhas.

Sabê-lo se tornar filme por obra e coragem de um brasileiro, então, encheu-me de expectativa e medo. Afinal, adaptações para o cinema geralmente são superficiais e indescentes. Sempre deixam a sensação de "faltar" alguma coisa ou de que "aquilo" não precisa ter mudado.

Acompanhei qual adolescente o blog de blindness que Meirelles escreveu durante as gravações e tudo o que lia enchia-me ainda mais de curiosidade.

Como não poderia deixar de ser, fomos, gordo-fofo e eu, assistir ao filme no mesmo dia do lançamento.

Não preciso dizer que minha vontade foi aplaudi-lo assim que o letreiro dos créditos começou a aparecer.

Quer orgulho ver um trabalho tão bem feito, com artistas tão consagrados e fantásticos, feito por um brasileiro. Mais louco ainda reconhecer na telona, caminhos do meu dia-a-dia, descritos em inglês por artistas branquelos e repletos de indicações para o Oscar.

E daí que a crítica em Cannes tenha falado mal? E daí que a chance de trazer uma estatueta seja mínima?

Desde o princípio, por já ter lido o livro e saber que Saramago não é, por assim dizer, a pessoa mais amada pelo capitalismo selvagem, era notório que haveria os torcedores de nariz. Ainda mais com cenas tão brutalizadas, tão violentas, tão animalescas - e, infelizmente, próximas de uma verdade não muito difícil de ser vivida diante de tanta competição e individualismo do mundo atual.

Meirelles está cada vez melhor. E vê-lo beijar a careca de um Saramago emocionado após o filme, curvando-se agradecido (e aliviado) diante do autor, deixou-me ainda mais orgulhosa.

domingo, setembro 07, 2008

O não livro do mês

Quero registrar a minha indignação por ler tantas críticas positivas à obra "O livro amarelo do terminal", de Vanessa Barbara.

Apesar de alguns trechos interessantes, a autora não merece ser comparada a grandes nomes da literatura, como Gay Tallese e Tom Wolfe. De duas uma: ou estamos muito carentes de escritores, ou os ditos "formadores de opinião" deste país estão "caidinhos".

A menina tem algum humor e alguma capacidade para descobrir boas histórias. Também, não poderia ser diferente. Rota de passagem de pessoas tão diferentes e díspares, o Terminal Rodoviário do Tietê é uma fonte viva de inspiração.

Os personagens são impressionantes. É o caso da mulher que está esperando pela marinha mercante, ao de seu Creso que, às 19h, pontualmente, grita em frente à loja que "A Le Postiche é 10". Tem, ainda, a senhora que, inexplicavelmente, acende uma vela dentro do armário de Malex e o velhinho cego que, apesar da presença da digníssima esposa, não resiste em jogar um charme à funcionária da Socicam. Mas,é claro: todos eles são maiores que o próprio livro.

Ok, a comparação aos grandes da literatura tem algum fundamento. A menina imita, descaradamente, a narração repleta de informações e números que dão início ao livro "Fama & Anonimato", do Tallese, por exemplo. Mas aí compará-la já é um tremendo exagero.

Ela comete erros básicos, como dizer que a assessoria de imprensa fornece dados como o de "financiamento" bruto da empresa. Estende demais algumas narrativas e deixa outras tantas sem uma conclusão. Na tentativa de fazer alusões a outras obras, transcreve trechos que, se em alguns momentos se justifica, em outros parece, a maioria, eu diria, que se assemelha a uma velha agenda adolescente, repleta de frases e imagens recortadas de revistas

A meu ver, um não livro. Que não justifica tanta publicidade e comentário.