terça-feira, agosto 28, 2007

Desabafo

Acho que o jornalismo - ou pelo menos a arte de investigar os fatos e averiguar os dois lados da moeda - deveria ser ensinado junto com as primeiras letras do alfabeto. O motivo é simples. Pessoas são egoístas. E, portanto, gostam de mostrar apenas o seu lado da situação. Se fazem de heroínas ou de vítimas, conforme a conveniência. Elas também adoram achar que existe um complô universal que lhes persegue desde o nascimento. E é por isso que pequenos desentendimentos, às vezes, se tornam motivos de rupturas doloridas. Humilhantes. Fraudulentas.

Quando, por alguma razão, escolhe-se suportar um relacionamento baseado em mágoa, o que surge é algo pouco nobre. Pequenos erros, como esquecer de uma data, sair com o cabelo despenteado, a roupa inapropriada ou a teimosia, a pão-durice, a ignorância, a petulância, viram sinal de falta de caráter. É como se, de repente, o "vitimizado" se tornasse acima do bem e do mal, uma pessoa sem pecados. E o outro, aquele que ousou pecar, é massacrado, repudiado, marginalizado. Vira refém de piadinhas inescrupulosas. O alvo da vez.

Somos seres humanos fadados ao erro. Atire a primeira pedra quem nunca se viu em situação semelhante.

No entanto, há pessoas que vivem neste jogo constantemente. Basta, para isso, ser contrariado no menor detalhe. Um sorriso no momento errado. Uma palavra mal colocada. A constatação de que o outro tem defeitos incompatíveis com a sua moral.

Infelizmente, essas são a maioria no mundo. Apontar o dedo em riste e condenar é mais fácil, afinal, do que sentar e esclarecer a situação. Perguntar o motivo que levou o outro a responder de maneira atravessada. A sair mais cedo. A não telefonar no seu aniversário. A não ligar pedindo esclarecimento. A fazer uma piada fora de propósito. Por se afastar e não fazê-lo participar de sua vida. Ou simplesmente, por não ser perfeito.

Ora. A imperfeição é uma benção: poder cometer erros e consertá-los, tirando disso uma lição que nos trará paz de espírito é uma das vantagens de estarmos aqui, dividindo este pedaço de chão. Tem gente que só percebe isso no leito de morte - ou quando perde alguém querido. Então, não vamos perder tempo com bobagens, né?

sábado, agosto 25, 2007

Um dia lindo como hoje merece algo nostálgico, rs

O Teatro Mágico - Ana E O Mar
Fernando Anitelli
Veio de manha molhar os pés na primeira onda
Abriu os braços devagar... e se entregou ao vento
O sol veio avisar... que de noite ele seria a lua,
Pra poder iluminar... Ana, o céu e o mar

Sol e vento, dia de casamento
Vento e sol, luz apagada num farol
Sol e chuva, casamento de viúva
Chuva e sol, casamento de espanhol

Ana aproveitava os carinhos do mundo
Os quatro elementos de tudo
Deitada diante do mar
Que apaixonado entregava as conchas mais belas
Tesouros de barcos e velas
Que o tempo não deixou voltar

Onde já se viu o mar apaixonado por uma menina?
Quem já conseguiu dominar o amor?
Por que é que o mar não se apaixona por uma lagoa
Porque a gente nunca sabe de quem vai gostar

Ana e o mar... mar e Ana
Historias que nos contam na cama
Antes da gente dormir

Ana e o mar... mar e ana
Todo sopro que apaga uma chama
Reacende o que for pra ficar

Quando Ana entra n'água
O sorriso do mar drugada
se estende pro resto do mundo
abençoando ondas cada vez mais altas
barcos com suas rotas e as conchas que vem avisar
desse novo amor... Ana e o mar

Coisas que me tiram do sério: no mercado de trabalho

Poderia enumerar várias coisas. Mas serei suscinta:

1. Odeio ter de fazer média para colegas e chefes.

2. Mas odeio, principalmente hoje, madrugada de sábado, e com todas as minhas forças, os chefes que te ligam na sexta-feira, às 20h, pra descascar o abacaxi e solicitar mudanças de última hora - ainda mais quando tais alterações independem de você (mas de terceiros).

Devia haver uma lei que proíbe as pessoas de "estragarem" o final de semana alheio. Ou, principalmente, a expectativa da chegada da segunda-feira. E tenho dito.

quarta-feira, agosto 22, 2007

Coisas que me tiram do sério: no trânsito

1. insulfilme: deixam o motorista que está atrás ou ao lado sem a menor noção do que está acontecendo a alguns palmos de distância. Devia ser proibido.

2. falta de gentileza: você dá a seta e, ao contrário do que deveria acontecer no mundo ideal, os indivíduos aceleram, impedindo a sua passagem.

3. medo de dar a seta: há motoristas que acham que a seta é desnecessária. Cruzam, atravessam, viram-se, mudam de faixa sem qualquer sinalização. Se o carro não tem insulfilme, é possível qual será a próxima "infração": a cabeça costuma acenar para o lado em que se pretende virar minutos antes disso acontecer. Com insulfilme, isso é praticamente impossível. Há ainda engraçadinhos que só avisam que vai virar quando já está virando o volante. Azar de quem está atrás.

4. buzina. O farol nem bem abriu e já tem indivíduo impaciente com a mãe na buzina. Você freou bruscamente porque alguém te fechou, lá vem a buzina de novo - acompanhada do olhar fatal, como se o problema da freada brusca tivesse sido exclusivamente seu.

5. pedestre abusado. Sim, eu como motorista tenho obrigadação de parar. Mas atravessar sem olhar para os lados, convenhamos: é um tremendo exagero.

6. telefone celular. Ok, confesso. Já cometi essa infração. Mas acho um absurdo e, por isso mesmo comprei um telefone celular com viva-voz e um aparelho auricular de atendimento às chamadas. Sem isso, evito atender ao celular. E acho que os demais motoristas deveriam fazer o mesmo.

7. radares para controlar velocidade. Ser multada porque a via era de 40km/h e se estava em 49 km/h é simplesmente um desaforo. Deveria haver um bom-senso.

8. costura. Não tem coisa mais irritante que pegar nervosinho costurando no trânsito. Se soubesse como é perigoso, pensariam mil vezes antes de sair por aí cortando todo mundo.

9. a falta de conhecimento dos motoristas quanto ao funcionamento das motocicletas. Todo mundo reclama dos motoqueiros. Mas ninguém pensa que a moto não breca como a bicicleta ou como o carro. Para parar completamente, o breque precisa ser acionado a metros de distância. Frenagem brusca faz a moto empinar e o motociclista voar para longe. Daí a importância das setas, do insulfilme mais claro (que permite a quem está atrás enxergar o que está acontecendo na frente), da gentileza, da cautela.

10. de marromzinhos que só ajudam a alimentar a indústria da multa. Cansei de vê-los pelas avenidas com bloquinho na mão, mas incapazes de colocar ordem na rua por causa de um farol quebrado. É um desrespeito com o contribuinte.

segunda-feira, agosto 13, 2007

Impotência

Duas coisas me tiram do sério. A covardia e a sensação de impotência.

A primeira é um sentimento que surge em relação às outras pessoas. Tenho verdadeira ojeriza de indivíduos que não agem por medo: de sofrer, de errar, de pagar mico... em geral, esse sentimento vem sempre acompanhado de um profundo arrependimento pela vida. Pode olhar em volta: as pessoas covardes estão sempre reclamando: porque a vida é difícil, porque seus problemas são maiores, porque as pessoas não prestam, porque nada dá certo. Simplesmente porque lhes faltam coragem de admitir que elas tomaram as decisões erradas. E que, para mudar, é preciso mudar, fazer diferente, ou apenas fazer.

Já a sensação de impotência é algo que me irrita em mim mesma. Saber-se inútil diante dos fatos. Ter consciência de que não vai adiantar esbravejar, xingar, berrar, implorar para as coisas acontecerem. E a resignação é a única alternativa possível.

E aqui eu preciso abrir um parêntese. Quando eu era criança, adorava a história do Pinóquio. E talvez por isso mesmo é que esses sentimentos estão tão presentes na minha vida. Não só porque Pinóquio lutou, até suas últimas forças, para conseguir realizar o seu sonho de se transformar em menino de verdade. Mas porque lembro, como se fosse hoje, de uma frase que Gepeto, num momento da história, disse ao boneco: "nunca deixe de se indignar com as coisas. No dia em que vir uma injustiça e não sentir nada por acreditar que aquilo é normal, você deixará de ser criança." Fecha parêntese.

Apesar dos meus trinta e um anos, ainda não consigo me acostumar com o descaso e a morte. Sofro ao ver um animal morto atropelado na rua. Me incomoda ver crianças esmolando na rua. Me entristece ver pessoas doentes. E me irrita profundamente saber que algo poderia ter sido evitado - ou se tornado menos sofrido - se, ao invés de acharem tudo normal, as pessoas agissem. E fico ainda mais irritada por saber que eu, na minha inconformidade, não posso fazer nada. A não ser resignar-me.

quinta-feira, agosto 09, 2007

Vai entender

Recentemente recebi um e-mail com o vídeo da nova campanha veiculada pela OAB. Sob o tema: "Basta", a campanha enumera tudo o que vem causado a indignação da população brasileira: violência, caos aéreo, corrupção, falta de oportunidade, saúde precária, educação de baixo nível...

MAS, para minha surpresa - e completa perplexidade - ao final, esse vídeo convida todos os brasileiros a fazerem, no dia 17 de agosto, às 13h, um minuto de silêncio em sinal de protesto.

Diz aí, pra mim, desde quando silêncio mudou alguma coisa neste mundo?

Eu, honestamente, estou cansada de ficar em silêncio. Fingir normalidade em relação aos fatos. Dizer que é assim mesmo. Que só podia ser coisa de brasileiro.

Por quê, ao invés de gastar dinheiro dizendo à população o que realmente deve ser feito, preferem pedir silêncio? Por quê uma campanha como essa só vem à tona quando matam um garotinho pertencente à classe média ou cai um avião na maior metrópole do país? Mas nada acontece quando milhões são chacinados por dia na periferia ou quando milhões de estudantes permanecem analfabetos nos rincões do país?

Fiquei com vergonha de ver aquilo. E profundamente indignada. Porque ficou evidente que a classe média reclama, reclama e reclama da passividade do "povo" brasileiro, mas na hora do vamos ver, só sabe clamar por "um minuto de silêncio". Um minuto de silêncio que, grandes ingênuos, só fará manter o status quo. Porque, sim, a classe média está bravinha, senhor presidente. Mas não faz PORRA nenhuma pra mudar alguma coisa.

Sinto dizer, caros leitores, que nada mudará. E não sou eu que digo isso. É a história universal que mostra que a classe média não é capaz de realizar qualquer transformação sozinha.

quinta-feira, agosto 02, 2007

Para não dizer que não falei de livros...

Faz tempo que não escrevo sobre livros. Então, aí vão as dicas do mês:

A menina que roubava livros, do australiano Markus Zusak. Nesta obra, a Morte é uma personagem que, curiosa com o destino de uma estranha garota que, a cada perda de algum parente ou amigo, vê no roubo de livros um motivo para se manter viva, decide investigá-la a fundo. A narrativa é rápida e sem rodeios, como a própria Morte. Mas também é surpreendente e emocionante, como a Vida.

A história se passa na Alemanha Nazista - por isso mesmo mostra um lado pouco comentado em livros que se passam nesta época: o lado dos alemães durante a guerra. Tal qual A sombra do vento, já comentado aqui, esse é um daqueles livros que nos deixam órfãos depois da leitura.

Memórias das minhas putas tristes, Gabriel García Marques. O livro é bom. Mas eu esperava mais de o autor de 100 anos de solidão. Trata da história de um velhinho de 90 anos que decide realizar o último sonho: transar com uma menina virgem. Para sua surpresa, a garotinha lhe desperta um amor, quase fraternal, que nunca antes havia sentido na vida. Tudo acaba ganhando uma nova cor, uma nova inspiração... blá-blá-blá.

As travessuras da menina má, Mario Vargas Llosa. Simplesmente delicioso. Tendo como pano de fundo todo o movimento histórico que aconteceu no mundo desde a década de 1940 (as ditaduras da América Latina, a luta pela justiça em Cuba, as revoluções esquerdistas, o movimento hippie, o rock'n'roll, o surgimento da Aids), o livro trata da história de um "coisinha à toa" que se apaixona por uma menina má que "nem é tão bonita assim". Mas que o faz de gato e sapato. Em resumo: ela se aproveita da paixonite estúpida do rapaz repleto de boas intenções, arranca-lhe dinheiro, carinho, afagos até encontrar um rico milionário que sustente suas luxúrias. Difícil é saber pra quem torcer na história: se pela diaba chilenita ou se pelo santinho sem graça, rsrs.