quinta-feira, dezembro 21, 2006

Questão de amor próprio

Tenho conversado com a molecada e confesso, estarrecida, estar preocupada com nossas meninas. O que tenho ouvido por aí são histórias de garotas classe-média, com todo o futuro pela frente, preocupadas única e exclusivamente em transar e "contar pontos". Quantos mais garotos na lista, melhor.

Estivessem elas conscientes de que esta é uma fase e que há outros objetivos na vida, vá lá. Mas a maioria cai neste conto de mulher fatal por acreditar, piamente, que assim encontrarão o príncipe encantado mais rapidamente. Para tanto, deixam de lado os estudos e se sujeitam às mais deplorantes humilhações: mesmo com o desdém dos rapazes que, abertamente, chamam-na de galinhas desocupadas, elas insistem em lhes telefonar, manter um "diálogo", propor relações sexuais homo e até orgias, em troca de uma palavra de afeto. Ou, pior, para mostrar para a colega ao lado que ela, e não a concorrente, é irresistível.

Se elas soubessem o escárnio que provocam nos rapazes, talvez reconsiderassem seu modo de pensar e agir.

Elas se enganam, achando que os rapazes do século 21 estão em busca de garotas avançadas, atiradas, depravadas. Quando, o que eles querem mesmo é pontuar, como elas. Ponto- final.

Mas, depois de uma conversa despretensiosa, esses mesmos caçadores confessam estar em buscar de alguém em quem possam confiar, dividir e multiplicar, sem correr riscos de comparações esdrúxulas ou jogos inúteis. Não querem garotas que fazem "cu doce". Mas esperam garotas de cara limpa e sorriso sincero, cuja preocupação não seja única e exclusivamente consumir, badalar, seduzir. Também não querem mulheres intelectualizadas, que levem tudo à sério, que não admitem atrasos ou pequenas estravagâncias. Querem, sim, pessoas inteligentes, que saibam rir e com alguma dose de loucura.

Os homens do século 21 são os mesmos do século 20. Só as mulheres ainda não perceberam isso.

Sem apelar para um discurso moralista, será que é possível equilibrar sensualidade, desejo de lutar pelo que acredita e ama, com amor próprio e um pingo de simancol?

terça-feira, dezembro 19, 2006

Contrasenso

Decididamente, o mundo só pode estar de pernas para o ar. A revista me diz que dar uma caixinha de 30 reais para o porteiro, a faxineira do prédio e o zelador é o ideal. O anúncio da TV me diz que aquele carrinho mil sem porra nenhuma custa a bagatela de 24 mil reais. As viagens custam mais de 900 reais. Um rápido passeio pelos shoppings me mostra uma multidão portando sacolas e mais sacolas. Do lado de casa, um sem-número de condomínios de alto padrão, apartamentos loft, casas luxuosas, e outro tanto sendo construídos - até dentro do parque Burle Marx. Nas ruas, carrões blindados, que custam mais de 100 mil.

E, apesar deste mar de prosperidade, quando converso com as pessoas, o cenário que se apresenta é desesperador. Amigos jornalistas se matando por mil reais. Dentistas vislumbrando a oportunidade de mudar de área para conseguir 800 reais mensais. Arquitetos preferindo ficar em casa e trabalhar como autônomos mesmo fora da área, a se sujeitar a receber dois salários mínimos. Turismólogos optando por outras faculdades para deixarem de ser explorados pelo mercado - exigente, agressivo, mal-pagador. Analistas de sistema sendo caixa de bancos porque não conseguiram trabalhos dignos em sua área.

Difícil, portanto, compreender este paradoxo. De um lado, pregam o consumo exacerbado, o gasto desmesurado, as beneces voluntariosas. Do outro, uma dureza sem fim: o vender o almoço para conseguir a janta.

E, apesar de toda a dificuldade, a sociedade, papagaiamente, concorda que, para ser feliz, é preciso trocar de carro todos os anos, morar no melhor lugar do mundo, ter bolsas Louis Vuitton, conhecer um restaurante chique por mês, cuidar da aparência, ficar na moda, ser magro, frequentar as baladas fashion, conhecer um ator global, ainda que tudo isso represente gastos exagerados, irritação com o mal-atendimento que estabelecimentos chiquetosos (e, infelizmente, seu público) oferecem, além de solidão, caos e, sobretudo, a manutenção deste sistema de explorador e explorados. Porque, enquanto acharem que a felicidade está na aquisição de bens materiais, e não na qualidade das relações humanas, o mundo continuará perdido.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Contagem regressiva

A partir de hoje, o mundo faz contagem regressiva para a chegada do Natal. Verdade seja dita, essa ansiedade infelizmente nada tem a ver com o clima de confraternização contagiante, muito menos porque a data representa a chegada de Cristo ao mundo, há 2006 anos. A contagem regressiva, de fato, é para a semana de merecido descanso que alguns poucos trabalhadores terão direito antes do ano novo.

Tirando o trânsito que fica ainda mais caótico; as pessoas que ressurgem do nada em sua vida; os inúmeros amigos-secretos que, quase sempre, escondem gracinhas hipócritas, eu gosto desta época do ano.

As casas ficam mais bonitas. As pessoas chegam mais cedo em casa e se dispõem a ouvir músicas no lugar de assistir a novela. Amigos distantes surgem para uma visitinha rápida, mas providencial. A temperatura me agrada e o momento de reflexão me faz entender que, em doze meses, muita coisa pode acontecer para uma pessoa, como descobrir novos talentos, ir morar com o amor da nossa vida, mudar de casa, aprender a cozinhar, fazer novas amizades, conhecer outras formas de arte e expressão, visitar outros lugares, rever velhos conceitos... E, sobretudo, perdoar.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Gente coisa é outra fina!

Podia gastar meu precioso espaço reclamando do terremoto que balançou minhas finanças ontem, me fazendo gastar dinheiro em algo não previsto, me obrigando a cancelar o encontro com uma tremenda amiga e quase me fazendo colocar fogo na casa. Mas acho isso uma bobagem...

Prefiro, portanto, falar da noite anterior, que foi o MUST!

A festa de 20 anos de um cliente - para o qual produzimos, maridones, equipe e eu, um vídeo institucional, modéstia a parte lindíssimo - foi fa-bu-lo-sa. É claro que, por ser chiquetosa, fui obrigada a colocar salto, vestidinho, fazer escova no cabelo e essas coisas de produção megaformal. Mas teve lá suas compensações.

A começar pelo jantar, extraordinário, no Thai Garden, um restaurante tailandês high-society na 9 de julho. Foi, simplesmente, a coisa mais sensacional que já experimentei na vida. Refeição balanceada, com todos os sabores (doce, amargo, azedo, salgado) ao-mesmo-tempo-agora, que desabrochava na boca. Percebi o delicado toque da culinária ayurvedica indiana. Mas não sei se tem alguma relação.

Dizem que durante a semana, o restaurante oferece almoços com direito a entrada, prato principal e sobremesa, por R$ 32,00. Vale a pena conferir!

É bom que se ressalte, porém, que a mocinha linda, que toca cítara - ou qualquer instrumento que pareça com uma harpa horizontal, rsrsrs - não é "ela", viu? E muito menos tailandesa - porque , com esses ouvidos que Deus me deu, eu a ouvi falar, em alto e em bom som: "então ele me achou delicaaaaaaaadaaaaaaaaa???", e, logo depois, cair na gargalhada por ter enganado mais um ingênuo, encantado com sua beleza.

Claro que tudo isso aconteceu para meu choque e, posterior deleite. Porque, gente, eu ri MUIIIIIIIITOOOOOOO com a descoberta. E ri mais ainda com os bofes pagando pau para a "mocinha". Mas confesso, sem nenhum constrangimento, que fiquei aliviada. A dita é um poço de delicadeza. Seus gestos são minuciosos, graciosos, femininíssimos. Nem daqui há cinco encarnações euzinha aqui conseguiria chegar a tanta elegância. Nem eu, nem qualquer mulher que eu conheço.

Mas, gente, olha que lindo! Ela é FALSAAAAAAAAAAAAAA!!! E finge delicadeza por apenas algumas horas. Para depois saracotear na primeira parada gay que rola na Paulista, como qualquer ser humano normal!

Não é o máximo? kkkkkkkkkkkkkkk

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Paulistano sem graça

Não tem coisa que mais me irrita ultimamente que o bairrismo orgulhoso e sem sentido dos moradores dos grandes centros urbanos.

Quer um exemplo? Para onde quer que vá, o paulistano típico quer impor o seu modo de viver, não importa se o barato do lugar é justamente o aspecto rústico e a diferença. Quer ver um exemplo? Pegue a revista Folha desta semana e veja a matéria sobre Itacaré (BA). Ao invés de pegar um baiano típico para indicar o que há de melhor na cidade, foram conversar com a jornalista mais paulista impossível, Ana Paula Padrão, que tem uma "casinha" de veraneio por lá. Até aí, tudo bem, não fosse a dita indicar dois lugares tipicamente paulistanos para se visitar no paraíso baiano, entre eles uma pizzaria.

Diz aí, meu rei: por acaso eu pretendo ir a Itacaré para comer pizza? Nada contra a iguaria, mas e a moqueca? O bobó? O peixe com banana da terra? O vatapá? O suco de cacau? As maravilhas da casa da Tia Deth? E a delicadeza das mãos de ouro da Mineira mais baiana que eu conheci?

Paulistano tira férias e vai para o Nordeste, mas espera ver por lá tudo o que tem por aqui - dos aspectos positivos aos negativos. Quer a agilidade no atendimento, lojas 24 horas, variedade de serviços, pessoas bonitas e bem-vestidas, tudo isso aliado à belezas naturais, tranquilidade, dados históricos... Mas, em nenhum momento, leva em conta as diferenças culturais e sociais do local. Trabalha onze meses sonhando em fugir da cidade, mas quando isso acontece reclama por não ver no outro lugar uma reprodução fidedigna de sua cidade natal.

Em contrapartida, quando está aqui, prefere pagar-pau para estrangeirismos, sabendo mais sobre autores norte-americanos que sobre escritores brasileiros. Vai para boates com hits eletrônicos, delira com a rumba e com danças hindu, mas torce o nariz para o reizado, o maracatu...

Por quê não ler clássicos universais, conhecer o filme hollywoodiano de sucesso, entender de cultura árabe mas também conhecer talentos da música brasileira - do samba ao rock? Por que não respeitar o Bumba-meu-boi ou a mitologia dos nossos negros africanos do mesmo jeito que se respeita a mitologia grega, ou as danças holandesas e alemãs? Porque transformar as festas juninas em festas country?

Quando CAÊ dizia que aqui era o túmulo do samba, bem que ele tinha lá a sua razão.

P.S> Pinochet já foi. Agora faltam Maluf, Bush, ACM, Sadam...


sexta-feira, dezembro 08, 2006

[ ... ]

Acho que estafei. Embora o corpo até esteja descansado, pedindo uma maratona de quilômetros, dança, baladas, mergulhos e afins, minha mente não acompanha. Os olhos querem se fechar, um resfriadinho chato insiste em ir e vir e a cabeça está em qualquer lugar, menos onde me encontro agora: em frente ao computador, tendo de fechar as últimas matérias do ano.

Até a novela, tão inútil e que geralmente não me convence, está sendo mais atraente que filmes cults ou conversas polemizadas.

Eu, simplesmente, não quero ter de pensar. Nem contar dois mais dois.

Mas, veja que coisa engraçada: com todo este cansaço, descobri uma nova paixão: a-do-ro histórias de vampiros. Começou com o Drácula, de Bram Stoker, que é fabuloso. Agora, estou me divertindo com a leitura nada pretensiosa de Os sete, do escritor brasileiro André Vianco. Apesar do começo meio sem graça e de alguns trechos previsíveis, as aventuras dos dois vampiros lusitanos que, depois de 406 anos, acordam em terras brasileiras é engraçadíssima!

Como é bom um texto nacional de qualidade e leve, só pra variar!

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Pérola mor

Sabe de uma coisa? Can-sei. Cansei de servir de bode expiatório. Porra coisa mais ridícula ser condenada por algo que você não fez. Pela incompetência alheia. Pela falta de tempo alheio. E, principalmente, pelo medo alheio. Medo de perder, de não conquistar, de não ganhar.

Medo é mesmo uma merda!

Medo do quê, me diz? De perder um cliente? Por acaso ele é o único no mundo? De perder um amor? Se perdeu, meu caro, é porque ele não era seu amor. Nem verdadeiro. Ou o medo é de perder um amigo? Antes só do que mal acompanhado.

Tão simples. Mas as pessoas insistem neste lance de apego.

Por acaso você sabe o que vai lhe acontecer amanhã? Se vai chover ou fazer sol?

E eu sou obrigada a ouvir, com todas as letras: antes você que eu.

Ao invés de me darem a chance de melhorar, de aperfeiçoar... Mas preferem a ruptura à união.

E, claro, o famoso puxão no tapete.

Afinal, antes você do que eu.

Há que se considerar a honestidade em me soltar a pérola-mor na cara. Tem gente por aí que dá as costas e você, por longo tempo, custa a entender que tomou uma rasteira. Vai entender depois do décimo telefonema não respondido, do e-mail ignorado.

Quer saber, Nietzsche, hoje, foi meu herói. A frase abaixo caiu como uma bomba neste meu dia azul, repleto de nuvens medrosas.

"corrompe toda a inocência e toda sutili neutralidade de vossa consciência, torna-vos cabelas-duras ao enfrentar objeções e trapos vermelhos, entontece-vos, animaliza-vos; apresentando-vos como defensores da verdade na Terra - como se "a verdade" fosse uma pessoa tão indefesa e torpe que necessitasse de defensores! E precisamente de vós, cavaleiros de tristíssima figura, meus senhores de esquina e tecelões de teias de aranha do espírito!"

Definitivamente, ando cansada dos humanos.