sexta-feira, setembro 29, 2006

Socorro

Meu e-mail está repleto de mensagens que tentam me convencer em quem (não) votar nas próximas eleições. Até agora, porém, ninguém se mobilizou em me enviar propostas que realmente me convençam, ou não, dos candidatos que estão por aí.

Minha gripe ainda não me deixou, apesar da quantidade excessiva de remédios que tenho tomado. Minha garganta arranha e minha cabeça dói.

Ainda sou obrigada a atender enganos, telemarketing de cartão de descontos e a cobrança bem mal-educada de um antigo parceiro de trabalho que me deixou bem irritada.

Ainda bem que é sexta-feira e vou visitar uma amiga, só pra variar.

Por nem o tempo, que está feio pra chuchu, está colaborando.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Bucólico

Daqui da janela do meu casulo, vejo um cavalo pastando calmamente no terreno em frente ao prédio. Crianças brincam com seus carrinhos no estacionamento do prédio. As folhas das árvores balançam ao vento e andorinhas tentam fazer verão.

Posso comer um chocolate, enquanto um ou outro carro passa pela rua.

E, enquanto isso, na frente do computador, o mundo se descortina, com um clique.

Revolta com nome e sobrenome

Estava evitando a todo custo falar sobre eleições, mas meu saco finalmente explodiu e não consigo calar a revolta que nasce aqui dentro do peito.

Estou bem puta da vida com a quantidade infinita de spams tentando me convencer de que o PT é o partido mais podre e o Lula o cara mais incompetente que governou este país. São piadas sobre a falta de dedos, sobre a bebida ou apresentações mais "sérias", que mostram as (não)realizações do governo atual. O último que recebi continha inúmeras capas de Veja sobre as diferentes fases do governo.

Todos , em suma, dizem que a dívida pública aumentou, que a taxa de juros continua indigna, que o prometido não foi cumprido e que Serra e Alckimin são as melhores alternativas para o país.

Sem querer defender a lama em que esse país se encontra, muito dela produzida pelo próprio PT, o que me estarrece nestas críticas é que NENHUMA diz que a política econômica que está aí é a mesmíssima que foi implementada pelo FHC. Nem mostra que o excelentíssimo ex-presidente também foi acusado de compra de votos, de esconder CPIs, de fazer caixa 2, de se unir a corruptos, etc. Que o governo Alckimin, que se diz tão justo, também dificulta o repasse de verba para as prefeituras da oposição, contribuindo para a injustiça social. Que o Serra, que alardeia para todo o canto cumprir suas promessas, não cumpriu a de que ficaria na prefeitura até o fim do mandato.

Ou seja: está tudo igual, seu Juvenal!

Que tal um panelaço nas ruas já, a favor de reforma política? Sem ela, meus caros spammers, eleitores, leitores, esse país corre o risco de continuar indo para o precipício.

terça-feira, setembro 26, 2006

Coisas da vó Dora

Minha família tem o dom de transformar qualquer lenda urbana em verdades absolutas. Acho que a mania vem da minha avó, que é capaz de se apavorar com uma nuvem mais carregada e uma ventania um pouco mais forte.

O fato é que a Dona Dora, de tanto ouvir Gil Gomes, ficou com medo até de tomar banho quente. Para ela, o vapor da água pode matá-la envenenada. Ela não entende que o casal que morreu asfixiado no banheiro tinha uma central a gás.

Ela também não toma gelado, com medo de ficar doente. Sorvete, só se estiver derretido.

Também não anda de carro. Diz que fica tonta com o movimento dos outros carros e dos objetos passando. Um medo recente, que ela adquiriu de 10 anos pra cá.

Não experimenta nada que não seja conhecido - nuggets, hambúrguer, crepe, então, nem pensar.

Não usa calça, não usa creme, não é vaidosa.

Quando morava ao lado da macumbeira, reclamava da vizinha. Agora que mudou, continua reclamando: ou porque a vizinhança é barulhenta, ou porque a nova casa é muito fria, ou porque tem muita escada. E sempre acrescenta um "tomara que a macumbeira aprenda só uma lição".

Não deixa a gente brincar com o cachorro porque é perigoso. Também não deixa que a gente jogue uma garrafa de refrigerante para o coitado brincar: ele pode ficar com vontade de tomar a bebida e ficar com bicha.

Rir alto é uma heresia.

Em dias de chuva forte, os santos vão todos para um copo repleto de água, como castigo. Só saem de lá depois da bonança.

Ela também não gosta de palavrão. Odeia a novela Sinhá Moça porque aqueles negros escravos têm a boca muito suja. Só sabem falar "mardito e desgraça".

Desliga a TV da tomada, só porque a luz de stand by fica acessa.

Minha avó é ou não uma figura?

Dona Dora é um diamante bruto. Que, apesar da fragilidade atual, foi uma fortaleza quando mais nova: enfrentou a sociedade preconceituosa, desquitou-se do marido inútil e carregou as três filhas sozinha. Foi trabalhar, construiu a casa, manteve todo mundo unido, sob suas asas. Hoje, se dá ao luxo de temer a própria sombra. A Dona Donarichi, como é o verdadeiro nome dela, é um exemplo de coragem e imaginação.

Engraçado, porém, é verificar o medo dela passando para as pessoas que moram com ela. A última que fiquei sabendo e que me fez cair da cadeira de tanto rir foi ouvir que tatuagem faz engravidar.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Livrai-nos do mal

Não faltam motivos para minha indignação.

Mas, uma das coisas que me deixaram de cabelo em pé recentemente foi a constatação de que algumas culturas legítimas brasileiras estão em extinção. Em recente visita a Itacaré e Ilhéus (BA) encontrei de tudo - até pastel de Itu. Mas foi uma tarefa hercúlea encontrar um restaurante que oferecesse uma boa e típica comida baiana. A explicação para tal fato veio de uma simpática baiana do acarajé e me chocou. A culpa disso tudo é da religião.

Para justificar a afirmação, a baiana deu seu próprio exemplo pessoal. Depois de convertida ao protestantismo, a cultura baiana passou a ser vista, por ela e seus irmãos de igreja, como uma manifestação da umbanda e do candomblé. Ela mesmo me disse que só continua fazendo acarajé e mugunzá porque não sabe fazer outra coisa da vida. Mas não relutou em complementar, como quem tenta diminuir a culpa: "apesar disso, eu não me visto mais de baiana, Deus me livre. Só faço isso quando os hotéis me pedem para alguma apresentação".

O resultado disso é uma cultura inteira sendo desprezada e esquecida. Em nome de Deus.

quarta-feira, setembro 20, 2006

Respeitável público

Eis que sobem as cortinas. E o que vejo diante dos meus olhos é uma trupe de palhaços, acrobatas, malabaristas... músicos. Ao todo 12... ou talvez 13 pessoas compartilhando um palco que, embora pequeno, é do tamanho do mundo.

Assim, sem que eu me desse conta, entrei na magia que se apresentava diante de mim. E ao lado, e aos fundos. Porque, de repente, notei que os jovens que ali estavam, tão expectadores quanto eu, estavam de pantufas. Maquiados. De laçarotes no cabelo. Absorvidos pelo encantamento da boneca de pano, do gaitista palhaço, do acrobata músico. Como eu.

Aquelas 200 pessoas da platéia, a maioria ali pela primeira vez (também como eu) ficaram entusiasmadas pelo som do violão, pelo batuque da percussão, pela delicadeza da flauta. Mas, sobretudo, admirados pela leveza da boneca, que se contorcia em lenços e se pendurava no teto, como se aquilo, embrulhar-se num pano e pendurar-se fazendo contorcionismos, fosse a coisa mais fácil do mundo.

Chorei. De emoção pela declaração do amigo que nos considera "camaradas d'água". De alegria, pela felicidade contagiante. De esperança, por saber que jovens, de 13 a 80 anos, ainda podem manter a ingenuidade de outrora.

O Teatro Mágico (http://www.oteatromagico.mus.br) é encantador, instigante, crítico... e mágico. Leve, como deve ser a vida!

quinta-feira, setembro 14, 2006

Saudosismo

Tecnologia é fantástica. E-mule, e-mail, msn, youtube, blog, orkut, google earth... Uma variedade sem fim de softwares, sites e ferramentas que permitem a qualquer ser humano explorar o mundo e se aproximar das pessoas.

Mas, de repente, fiquei com saudades de uma época em que tudo isso não passava de alucinação.

Lembro-me, até hoje, do dia em que, ansiosa por ouvir o show do A-ha que seria transmitido pela rádio Jovem Pan, eu quase destruí a casa em busca de fita K7. Eu, que ainda não sabia mexer com gravadores, removi sem querer a lingueta de segurança da gravação e quase fiquei sem gravar essa raridade não fosse um providencial durex que encontrei nas coisas da minha mãe.

Guardo a fita com carinho até hoje.

Também tinha as cartas. Era uma emoção indescritível receber um envelope dos amigos, que chegava semana sim, semana não. Vinham sempre repletos de rabiscos, recortes, desenhos, cheiros, sentimentos. Um envelope era sempre diferente do outro. Dentro deles podia-se encontrar de tudo: pétalas de flores, recortes de revistas, fotos, fichas de telefone, selos internacionais, adesivos, desenhos maravilhosos, dobraduras artísticas, poemas e letras de músicas.

E por falar em letras de músicas, fiz INÚMEROS amigos trocando essas preciosidades, entre eles o maridão.

Tinha, ainda, revista MAD, disputa pelo último vinil do Legião, brigar pelo último chup-chup na cantina, trocar figurinhas do Garfield, disputas pelo fichário mais criativo, enfeitado com recortes de revista. Ah, e sim, naquela época, a 89 FM era, sim, uma rádio de rock...

Indo mais pra trás ainda nas recordações, lembro-me de quando o Jd. São Luís era um matagal só e, em dias quentes como os de hoje, uníamos as únicas quatro famílias que moravam no bairro para caçar tanajuras - aquelas formigas de bunda grande - para fritar e comer com farinha (um prato típico pernambucano).

Não vou dizer com isso que aquele tempo era melhor que o atual. Mas o descompromisso, a ingenuidade, a possibilidade de oferecer pequenos gestos como prova de amizade e a paixão pela vida me deixaram com alguma saudade daquele tempo.

terça-feira, setembro 12, 2006

Pedaço da China em Sampa


São Paulo tem lugares incríveis para serem descobertos. Um deles é o Templo Zu lai

Estar ali é ter a sensação de ter voado diretamente para a Cidade Proibida, em Pequim.

Se, de um lado, a arquitetura é fascinante e enche os olhos de qualquer desavisado, por outro, os jardins não são menos estonteantes. Coloridos, tranquilos e perfumados, são perfeitos para uma tarde ensolarada.

É claro que não precisa ser budista para visitar o local - que é um dentre os muitos templos do Monastério Fo Guang Shan espalhados pelo mundo e cujo objetivo é divulgar o Budismo Mahayana, que prega que qualquer ser iluminado não atingirá o nirvana enquanto todos os seres não alcançarem a luz. Mas é preciso estar disposto a se deparar com coisas que não encontramos pelas ruas.

É o caso dos monges carecas e de túnica, que renunciaram a todos os seus pertences e desejos mundanos para atingir a pureza de espírito. Sorridentes e simpáticos, estão sempre disponíveis a responder a qualquer pergunta que se faça - desde que não seja no horário das orações.

Também há budas espalhados por todos os lados. Todos possuem as 32 características físicas que identificam um Iluminado, entre elas os dedos longos e finos, os pés arqueados, os braços que chegam aos joelhos e um cacho de cabelo entre as sobrancelhas.

Vale a pena observar os mudras (gestos) de cada um deles. As diferenças entre os gestos de cada representação indicam os diferentes acontecimentos que levaram Siddhartha Gautama a se tornar um buda. Um exemplo é o buda Bodhisattva Maitrya, do sânscrito "desperto", representado sentado, com a planta do pé direito no chão e gordinho, cujo sorriso é a manifestação da alegria de quem aceita tudo com equilíbrio e tranqüilidade. Seu rosto reflete a compaixão de quem é um grande iluminado, mas que ainda está para renascer na Terra.

Já o sorriso do Buda Shakyamuni, do sânscrito "sábio do clã dos shakya" e que é representado em meditação, com a mão esquerda no colo e a direita apontada para o sol, exterioriza a alegria de atingir o estado supremo de nirvana.

O templo também tem um restaurante de comida vegetariana que, dizem, é bárbaro. Por R$12,00, come-se à vontade. Ainda não tive a experiência, mas por todo o resto, é claro que um dia terei de voltar lá para experimentar!!!

Ah, quem se interessou, dia 23 de setembro acontecerá por lá o China's Day.

sábado, setembro 02, 2006

Questão de bruxaria?

Sempre tive sentimentos conflitantes com relação à cozinha. Embora seja o ponto-de-encontro da casa, colocando no chinelo qualquer TV de plasma e DVD superpotente - pelo menos em casa, onde os grandes papos, as maiores brigas, as melhores descobertas sempre aconteceram -, eu ficava desesperada com a menor possibilidade de ter de me virar no fogão. Cheiros e temperos sempre me encantaram, mas o medo de cometer erros me impelia a investigar este cômodo mais a fundo.

Uma querida amiga sempre me diz, aos risos, que o momento de cozinhar é um momento único do dia. Uma tarefa que ela jamais delegaria a qualquer mestre-cuca. Segundo ela, além de relaxante, a arte de cozinhar tem um quê de magia: capaz de absorver toda a energia da pessoa, pode transformar uma simples comidinha em um manjar dos deuses se for feita com amor e carinho. Do mesmo jeito, poderia transformar uma ultra-mega-ceia num lixo canalizador de doenças, caso seja feita com raiva e pouco empenho. Como água para chocolate.

Agora que me vejo tendo de preparar o almoço - ou parte dele - todos os dias, sou obrigada a me lembrar desta minha amiga todo dia. E com que alegria - e surpresa - comecei a entender o que ela dizia. Porque, de fato, é assim que acontece.

Enquanto estou entre colheres de pau, condimentos e com toda aquela variedade de cores, sabores e aromas, é como se o mundo parasse. Como se eu regesse minha própria orquestra - na qual eu sou o maestro e também a platéia.

E me pergunto se essa sensação de fazer parte de um ritual, do qual essa amiga falava e com quem hoje compartilho a opinião, teria alguma relação com a bruxa que cada mulher traz dentro de si. Um momento no qual suas orações e sentimentos saem do plano espiritual e se transformam em algo concreto, palatável, único - que alimentará o corpo daqueles que amamos.