quarta-feira, setembro 14, 2011

Luiza - boneca de verdade

Quando a Luiza ainda era uma sementinha, eu e a mãe dela confabulávamos para saber como ela seria. Tão doce quanto a irmã? Mais forte ou mais sapeca?

Luiza nasceu nervosa, chorando alto e esticando os dedinhos, já enormes, como quem quer alcançar o mundo.

Matreira, sorria safada já no coloco, com poucos meses. Olhos grandes, gargalhada fácil. E sabe-se lá porque cargas d'água, ainda sem falar as primeiras palavras, cismou com a minha cara. Eu lhe pedia, carente, um beijinho, que ela jogava num bico imenso e gostoso. Mas ela, sabendo que eu sorriria, dizia que não com o corpinho. Tirava um beijo com a mão e depositava para quem quisesse: a mãe, a avó, o tio, a tia e até a minha irmã, que ela via pouco. Mas para mim, sorria com os olhos e dizia que não.

Eu que fosse procurar bicos e beijos em outro lugar.

Então tá, eu dizia. E ela, tão pequenininha, apenas sorria!

Um dia, ela se esqueceu da birra. E veio para o meu colo, sem pestanejar. E eu ganhei o final de semana, o mês, o ano (adulto é bicho besta)...

Luiza é danada. Olhos imensos, bondosos, risonhos, mais sapecas que ela mesma. E denunciam, sem pestanejar, a sua próxima arte.

Uma vez, já grandinha, ela se recusou a me cumprimentar. Viu a farra que a irmã mais velha fez ao me ver e, indignada com a falta de exclusividade, fingiu não me ver. Manteve a sua posição por muito tempo, talvez meia hora, talvez mais. E, quando eu lhe puxei e perguntei se ela não me daria oi, ela muito esperta sorriu. Sacou o celular de brinquedo e fingiu me ligar. Falou o "oi, Ju" mais delicioso da fase da Terra, sorriu e disse que estava com saudade. Ao que eu respondi à brincadeira e finalizei dizendo: agora eu quero um beijo de verdade. Ganhei, claro!

Luíza é assim: faz diferente porque ela é diferente. Ponto final.

Para ela, tudo é uma farra. E mesmo quando ameaça chorar, uma piada já a faz sorrir.

Sua gargalhada não me sai da cabeça. E em tempos frios, puxo ela pela memória, para me sentir aquecida.

Que Emília, boneca de pano que nada. Sou muito mais Luíza, essa bonequinha sapeca de verdade. :)

sexta-feira, outubro 22, 2010

Paciência

Depois de um processo intenso e doloroso de autoconhecimento e mudanças de paradigma - que culminou numa pessoa mais calma e equilibrada, porém não livre de seus defeitos - pensamos que nossa tarefa está acabada e, enfim, é o momento de desfrutar dos benefícios de tudo o que aconteceu. Sabemos que seremos desafiados, que teremos recaídas e que, apesar dos pesares, tudo vai dar certo.

Mas nos esquecemos de que os rótulos que nos perseguiram por anos não saem assim, de uma hora para a outra. Ouvir, depois de um relato, um "garanto que você fez assim e assado como sempre fez"... escancarando, para meu espanto, a descrença de uma mudança real e efetiva, foi, para dizer o mínimo, um balde de água gelada.

Evidentemente, não tenho de dar satisfação sobre o que eu sou ou deixo de ser a ninguém - ainda que essa pessoa seja a minha própria vida. Pensem de mim da maneira que quiser - e eu sigo minha vida, tentando ser uma pessoa melhor, apesar de alguns resultados não saírem como eu gostaria. Minha consciência segue tranquila, apesar de chateada, claro, com um deslize - que foi contornado, mas que trouxe à tona minha humanidade (apesar dos mantras, dos yogas, da filosofia, e todo o mais, ainda sinto raiva, medo, indignação, compaixão, etc).

Mas, a gente sempre espera que nos vejam de maneira bonita e confiante, todos os dias, né?

Maldita TPM.

quinta-feira, junho 03, 2010

Felicidade!

Processos

Internalizar é um processo doloroso. E olha que sempre me vi uma pessoa muito mais introspectiva e reflexiva que expansiva. Na verdade, me dividia em duas pessoas distintas, talvez por conta do signo, gêmeos, que me permite aceitar as diferentes facetas de forma dissociada. A profissional é tagarela, questionadora, estratégica, independente, blablabla. Enquanto a outra, a pessoal, é a bravinha, insegura, atrapalhada, sensível etc.

Por um tempo, essas duas pessoas conviviam tranquilamente, sem grandes transtornos. Mas, eis que a maturidade passou a exigir ajustes. E lidar com tantas diferenças passou a incomodar e trouxe à tona uma crise de identidade difícil de lidar sozinha.

Pois bem, eis que, prestes a comemorar mais um aniversário, me vejo às voltas de um intenso caminho de autoconhecimento que me trouxe revelações estarrecedoras e, porque não, aliviadoras. Sim, porque descobrir que o rótulo que se carregava anos a fio é inteiramente descartável é libertador.

Claro é que gostaria de dar um tempo dos afazeres diários para mergulhar neste dilema e me livrar de impurezas que carrego, sabe se lá há quanto tempo, e que me transformou num ser que hoje amo, mas não reconheço como sendo eu. A imagem interna não é a mesma que projeto externamente. Pensar em como ficarei daqui pra frente, tendo consciência do que virei por causa de fatores externos, traumas infantis, medos adolescentes e fantasmas que criei ainda é um enigma. Mas é estimulante.

Para usar uma palavra que um ex-amigo insistia em me repetir constantemente nos nossos últimos bate-papos, desapeguei. De tudo. Inclusive de mim mesma. Mas precisei perder as forças, abandonar as armaduras, ver-me quase que sozinha, para entender que meu modo protecionista de me relacionar com o mundo estava protegendo a todos de tudo, menos a mim de mim mesma.

quarta-feira, março 24, 2010

Don't Get Me Wrong - The pretenders

Se eu falar demais, além da conta, acima dos limites permitidos...
Don't get me wrong! rsrsrs

Valor de uma boa conversa

Cometo sincericídios diários. A psicóloga, provavelmente, deve achar isso uma "compulsão suicída" - já que essa tendência de falar o que penso, sem um filtro protetor, já me colocou em saias justas homéricas. Sempre achei, contudo, que essa característica, na verdade, tenta me proteger: como sei que vou falar mesmo, melhor dar a cara a tapa de uma vez. Ninguém pode me apontar o dedo dizendo que não sabia do meu ponto de vista. Podem falar outra coisa, menos que fui honesta.

Menos me justificar por ser assim e mais para defender essa posição é que me motivei a escrever. Estamos num mundo de tanta correria e tão pouco tempo para relacionamentos francos, que diante de uma fofoca, as pessoas preferem se refugiar indignadas a ter de esclarecer a situação. Sinceridade e transparência acabam se limitando a apenas algumas esferas sociais - e olhe lá. Mais frequente ouvir um "melhor deixar pra lá" do que um "vamos esclarecer a situação".

Hoje tive o maior exemplo de como a falta de conversas francas pode ser prejudicial, sobretudo no ambiente de trabalho - onde fofocas são alimentadas diariamente e pequenos deslizes comuns aos seres humanos podem ganhar uma dimensão inimaginável.

O hábito de ouvir as duas partes antes de tecer julgamentos deveria ser ensinado em casa, quando ainda somos bebês. A verdade tem inúmeras faces - todas elas repletas de razão e complexidade.

domingo, março 14, 2010

Um pouco de brasilidade, pra variar

A autoestima do brasileiro não é das melhores. Todos suspiram pensando como serÍamos um país melhor e mais justo se tivéssemos mais educação, se a distribuição de renda fosse mais igualitária, se o sistema de transporte funcionasse...

Esses dias, delirei de orgulho ao ouvir que nosso sistema de saúde é um dos mais modernos do mundo. Se não há democracia no atendimento, certamente é um alívio saber que há pessoas que vêm dos mais diversos lugares, de países desenvolvidos da Europa, Ásia e Estados Unidos, para se tratar por essas bandas.

Mas tive de engolir, ressentida, que seria possível escrever um guia das desculpas esfarrapadas que brasileiro dá para justificar atrasos, trocas de datas para compromissos agendados e outras "cositas a más". O que justificaria nosso atraso, nossa pequenez diante do restante do mundo.

Concordo em partes com a crítica. Certamente, estamos longe de ter a pontualidade britânica. Somos fraternais, perdemos o foco, não planejamos e esquecemos que o trânsito está cada vez pior, imprevistos acontecem e deixamos de nos colocar na posição de quem espera. Ok. Mas, certamente, admiro muito mais a flexibilidade do brasileiro em se adaptar às circunstâncias que ao imperialismo burro que só aceita o que é pontual e antecipado, e ponto final.

Diante de um imprevisto, temos jogo de cintura para mudar a agenda, rever prazos, providenciar alternativas e resolver um impasse. Abrimos o jogo, reinventamos a roda e invertemos prioridades. Saímos da zona de conforto, estudamos uma nova estratégia e a aplicamos, muitas vezes com sucesso, outras sem muita certeza, mas fazemos alguma coisa. E, melhor de tudo, sem deixar nada de fora - encaixamos um horário aqui, tomamos uma decisão menor acolá, mas cumprimos o calendário.

A superioridade burocrática alheia tumultua, perde o foco, tira o time de campo e recua com o rabo entre as pernas. Reclama de nós, mas não entende como chegamos onde chegamos, em meio ao caos, à corrupção e ainda sorrimos, gentis, sem deixar de estender as mãos a terceiros.

Desculpem o primeiro mundo. MAS NÓS, BRASILEIROS, SOMOS FODA!

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

O sucesso e os brasileiros

Pode reparar: sucesso, no Brasil, embora desejado, é visto com desconfiança e despeito pelas pessoas.

Tudo começa na escola, quando o cara inteligente, que tira boas notas, é apelidado de nerd e CDF e, se não tiver jogo de cintura, é isolado pela turma inteira. E isso se repete ao longo da vida.

Tanto que, não raro, as pessoas se justificam para as outras por ter comprado um belo apartamento, ou trocado o carro mil por uma pick-up. E a sucessão de absurdos não pára por aí. Diante do crescimento alheio, as pessoas não se constrangem ao tecer comentários maldosos do tipo: "por que não escolhi essa profissão?", ou "tá esbanjando dinheiro, hein?". Como se fosse um pecado mortal preferir o conforto, o prazer e a comodidade; e como se não fosse natural que o esforço seja recompensado - inclusive com melhor padrão de vida.

Os funcionários reclamam se percebem que o patrão está com um terno de marca, um carro sofisticado e um novo apartamento. E confundem sociedade capitalista com paternalismo barato. A chefe bem sucedida, se reclama da equipe, é mal-amada. O chefe, ditador. O visionário vira corrupto, e por aí vai.

Na contramão disso, tem a falta de bom senso. Há pés-rapados que torram as parcas economias com um GPS quando seu meio de transporte é a bicicleta (sim, isso existe!). Há, ainda, pessoas que postergam os estudos e a qualidade de vida para comprar um carro (velho) que vai torrar metade do salário por exatos 60 meses.

Daí que, no Brasil, todo mundo aceita o "querer parecer rico". Mas rejeita quem, de fato, está crescendo na vida. Contribui-se, assim, para uma sociedade baseada em (falsas) aparências, pouco esforço e jeitinho. Triste e cruel realidade.

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Primeira postagem de 2010 - ou a última de 2009

Poderia chamar esse post de primeiro de 2010, mas, como no Brasil o ano só começa depois do Carnaval, ainda permanece a sensação esquisita de paralisação, expectativa e total "não sei o que está por vir", típicas desta época.

Mas, enquanto pensava sobre o que escrever, soube que morreu na noite de ontem o Pena Branca. Não sou uma conhecedora da obra da dupla - ou de qq outra do gênero - mas sempre me emociono quando tenho a chance de ouvir, ao vivo, a alguma apresentação típica.

Tive a oportunidade de assistir a um dos últimos shows da dupla, juntamente com Renato Teixeira, num dos eventos promovidos pelo SESC Carmo, na época em que fui estagiária lá. Moleca que eu era, estava torcendo para a equipe de animadores culturais escolheu alguma banda de rock nacional ou, sei lá, algum cantor ou cantora que alguma emissora de rádio classificaria como "a nova safra da MPB", e torci o nariz quando soube quem animaria o Largo São Bento naquela ocasião. Mas, depois de me esbaldar de rir com uma animada quadrilha, ouvir ao show do trio foi, sem dúvida, um dos momentos ilustres da minha vida.

Pena Branca e Xavantinho, que até então eu desconhecia, eram de uma candura indescritível. O brilho os olhos e do vasto sorriso branco de ambos era um alento. Os dedos ágeis da viola caipira, um presente aos ouvidos - habituados àquela barulheira paulistana de trens, caos e trânsito. E a cumplicidade, compartilhada carinhosamente com Teixeira, uma lição de vida.

Difícil conter as lágrimas ao ouvir Romaria. E, não fui a única, aquele dia, que se extasiou, sorriu com os causos ingênuos, e agradeceu a Deus pela dádiva daquele presente tão inesperado, numa tarde qualquer no centro de São Paulo.